instruções para não fazer nada


Instruções para não fazer nada / Istruzioni per non fare nulla
di
Riccardo Venturi


      Que deve fazer um poeta quando não tem nada a fazer?
      Primeiro, deve esquecer a poesia. Um carro não é poesia,
      Às vezes nem o céu, nem o amor e nem Deus são poesia.
      Deve olhar. Olhar para tudo. Encontrar a sua imagem
5    Num nada que sempre toma formas diferentes
      Mas fica nada. Correr pelas ruas do infinito
      A olhar para pés que o acompanham.

      Não esqueça o poeta que, às vezes, as imagens
      Tomam forma de pensamentos ou de acções;
10   Elaborá-las, fazê-las em não pensando, em não agindo.
      Até ficarem sem forma. Até se encherem de nada;
      Até chegarem a um nada mais elevado do nada,
      Ao nada onde a liberdade
      Voa sem cuidar mais em nada.

15   Nestes momentos, o poeta pode fazer tudo,
      E, às vezes, opta por o fazer.
      Mas o poeta verdadeiro opta por não fazer nada,
      Opta por ficarem desconhecidas as suas palavras.
      Houve poetas que cantaram as vozes do silêncio,
20   E o silêncio, às vezes, faz um barulho terrível;
      Houve poetas que, em cantando o não e o nada
      Subiram a montes onde Deus parecia uma formiga sem cabeça.

      Che deve fare un poeta quando non ha nulla da fare?
      Primo, deve scordare la poesia. Un'auto non è poesia,
      A volte nemmeno il cielo, nemmeno l'amore e nemmeno Dio sono poesia.
      Deve guardare. Guardare tutto. Trovare la sua immagine
5    Nel nulla che sempre assume forme differenti
      Ma rimane nulla. Correre per le strade dell'infinito
      A guardare i piedi che lo accompagnano.

      Non scordi il poeta che, a volte, le immagini
      Prendono forma di pensieri o di azioni;
10   Elaborarle, farle senza pensare, senza agire.
      Finché non restino senza forma. Finché non si riempino di nulla;
      Finché non arrivino a un nulla più elevato del nulla,
      Al nulla dove la libertà
      Vola senza curarsi più di nulla.

15   In questi momenti il poeta può fare tutto,
      E, a volte, sceglie di farlo;
      Ma il poeta vero sceglie di non fare nulla,
      Sceglie che le sue parole restino sconosciute.
      Ci furono poeti che cantarono le voci del silenzio
20   E il silenzio, a volte, fa un baccano terribile;
      Ci furono poeti che, cantando il no e il nulla
      Salirono su monti dove Dio sembrava una formica senza testa.

["cosa" (o "bischerata" che dir si voglia) tratta da Poemas em português, 1993-1994]


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